quarta-feira, 3 de novembro de 2010

CALVÁRIO

                                                              

                                                              « Quem vive aqui?»

UMA SENHORA

Uma senhora passou casualmente por estes lados. Atraída pela Capela original e pelo verde abundante que a rodeia, entrou em nossa Casa por curiosidade.
- Quem vive aqui? – Perguntou-me.
Fui-lhe então revelando a finalidade do Calvário.
E sem mais perguntas, voltando-se para ela, começou por dizer que era consagrada e já vivera num Instituto religioso. Esteve em África, onde exerceu uma actividade gratificante junto das populações daquele continente. Voltou e foi directora dum lar de idosos. Prosseguiu, dizendo que tem jeito e qualidades para lidar com pessoas doentes e de idade. Presentemente trabalha na promoção de equipamentos de saúde e concluiu parecer-lhe talhada para este nosso viver.
Mas, toda esta bagagem de conhecimentos, de competências e andanças, é demasiado pesada para esta nossa carruagem.
Um dos desejos humanos mais natural é ser-se admirado. Muita gente anda, hoje, com um curriculum debaixo do braço, distribuindo-o. Nada fizeram, por vezes, mas têm cursos, estágios, frequência em acções de formação. E vão-se apresentando com tudo isto para causar admiração e naturalmente colocação.
Uns gostam de ser apreciados pelo que são ou julgam ser, outros pelo que fazem de bem e até de mal.
Ora, aqueles que sentem à sua volta uma onda de amor, de compreensão e de estima, não sentem necessidade de ser admirados, porque já o são antes de o desejarem ser.
Os nossos doentes gostam que admiremos, não o que são – coitados deles – mas aquilo que vão fazendo. Sabem que são estimados e, por isso, não reclamam admiração pela sua pessoa. Só o desejam em relação ao que executam.
-Olhe, venha ver; já levantei da cama o Diamantino mais o Joaquim.
- Repare como está limpa a avenida.
- Já lavei a loiça toda.
- Gosta desta pega redonda?
E não param de mostrar o que fazem. Não apregoam o que são.
Com simplicidade, apresentam o que produzem. E assim é que está certo.
A competição é uma das marcas do nosso tempo. Todos querem ser mais, julgam ser maiores mostrando pergaminhos.
- Aprendei de Mim que sou manso e humilde – dizia Jesus.
Depois de fazer alguma cura Ele recomendava que o não dissessem a ninguém. E, quando pretenderam fazê-lO rei, escondeu-se nas montanhas. Era o Mestre.

Padre Baptista