segunda-feira, 4 de julho de 2011

Poema de Bertold Brecht (1898-1956)

"Primeiro levaram os negros,
mas não me importei com isso,
eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários,
mas não me importei com isso,
eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis,
mas não me importei com isso,
porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados,
mas como tenho o meu emprego,
também não me importei.

Agora estão a levar-me,
mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém,
ninguém se importa comigo."

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Excerto do livro "Nobreza de Espírito-Um Ideal Esquecido" de Rob Riemen uma leitura a não perder

"Baruch de Espinosa tem 24 anos quando abandona o meio mercantil em que foi criado para dedicar o resto da sua vida à demanda da verdade e à meta de uma vida vivida com verdade. Porquê? No Tratado da Reforma do Entendimento - um tratado curto, inacabado que pode ser lido como um estudo preliminar para a sua Ética - explica essa escolha: a experiência ensinou-lhe que quase tudo na vida é vão e trivial. Inevitavelmente, levanta-se a questão de saber se não existe alguma verdade e duradouro bem ao alcance dos seres humanos, de modo que possam viver vidas boas e verdadeiras. O jovem está completamente ciente de que este género de vida significa um corte radical com uma sociedade em que cada um é guiado pela sede de «riqueza,honrarias e prazer sensual». Todavia, já reparou que esses desejos nunca podem trazer felicidade e paz de espírito para sempre. Mais ainda, teve já a experiência de que mesmo um pensamento focado, a tentativa de entender o que são a verdade e a maneira correcta de viver - ainda que de modo efémero- lhe trazem a calma e a alegria que procura. Esta experiência quase física, tão simples como essencial, fornece a Espinosa duas revelações que determinam o resto da sua vida.
A mente é o maior dom da humanidade. Pensando por si, qualquer pessoa pode familiarizar-se com o que é verdadeira e duradouramente bom e viver em conformidade. A melhor vida é desse modo inteiramente dedicada ao pensamento, ao amor da sabedoria. Numa carta a um amigo, Espinosa confessa: «Que cada um viva de acordo com as suas inclinações pessoais tanto quanto eu posso viver para a verdade». Ao mesmo tempo, compreende que a verdade e a liberdade estão sempre entrelaçadas. Quem não for livre não pode viver com verdade."

ALBERTO CAEIRO


Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
...Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro

Nobreza de Espírito - Um ideal Esquecido

"...
-Quanto a mim, isso é precisamente o que esses intelectuais não deveriam estar a fazer agora. O mundo inteiro está atarefado a debater o mal. De resto, o que acha que vai conseguir com isso? A humanidade melhorará um iota por causa disso? Porque não faz uma coisa mais positiva? Organize um congresso sobre a LIBERDADE. Porque é o que querem destruir esses desprezíveis filhos da mãe, esses necrófilos cobardes; a Mulher Poderosa (Estátua da Liberdade)!
...
-Além disso, só podemos esperar que o 11 de Setembro também nos faça perceber até que ponto o Ocidente, os Estados Unidos em particular, é mais infiel aos seus próprios ideais. Como somos hipócritas quando se trata de interesses económicos e de política externa! A hipocrisia é o resultado da ganância que estrangula a nossa sociedade. Marx certamente viu-o bem: o capitalismo também é uma força destrutiva!
...
_ Nobreza de Espírito é o grande ideal! É a realização da verdadeira liberdade, e não pode haver democracia, mundo livre, sem este alicerce moral! "

In Nobreza de Espírito - Um Ideal Esquecido, de Rob Riemen

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

The Lonely Shoe Lying on the Road


One sad shoe that someone has probably flung
out of a car or truck. Why only one?
This happens on an average one year
in four. But always throughout my
life, my travels, I see it like
a memorandum. Something I have
forgotten to remember,
that there are always
mysteries in life. That shoes
do not always go in pairs, any more
than we do. That one fits;
the other, not. That children can
thoughtlessly and in a merry fashion
chuck out someone's shoe, split up
someone's life.

But usually that shoe that I
see is a man's, old, worn, the sole
parted from the upper.
Then why did the owner keep the other,
keep it to himself? Was he
afraid (as I so often am with
inanimate objects) to hurt its feelings?
That one shoe in the road invokes
my awe and my sad pity.


by Muriel Spark

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"Reconhecemos o problema da destruição do ambiente. Contudo, parece que só muito lentamente é que estamos a tomar consciência de que a salvação da ecologia depende da salvação da nossa camada de ozono espiritual e, em particular, da salvação das nossas florestas tropicais espirituais. Não nos deveríamos já ter questionado há muito sobre o que se passa com a conspurcação do pensamento, com a poluição das nossas almas? Muito do que aceitamos nesta cultura media e de consumo corresponde, no fundo, a um lastro tóxico que conduzirá, quase forçosamente, a um envenenamento espiritual."

In "A Luz do Mundo"
Peter Seewald 


domingo, 16 de janeiro de 2011

METADE

E que a força do medo que tenho,
Não me impeça de ver o que anseio,
Que a morte de tudo o que acredito,
Não me tape os ouvidos e a boca:
Porque metade de mim é o que grito,
Mas a outra metade é silêncio.  


Que a música que ouço ao longe,
Seja linda, ainda que triste.

Que o homem que eu amo,
Seja para sempre amado, mesmo que distante:
Porque metade de mim é partida,
E a outra metade é saudade.


Que as palavras que eu falo,
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A uma pessoa inundada de sentimento:
Porque metade de mim é o que ouço,
Mas a outra metade é o que calo.


Que essa minha vontade de ir embora,
Se transforme na calma e na paz que eu mereço.


Que essa tensão que corre por dentro
Seja um dia recompensada:
Porque metade de mim é o que penso,
E a outra é um vulcão.


Que o medo da solidão se afaste,
Que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.


Que o espelho reflita em meu rosto, o doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância:
Porque metade de mim é a lembrança do que foi,
A outra metade, eu não sei.


Não seja preciso mais que uma simples alegria
Para me fazer aquietar o espírito,
E que o teu silêncio me fale cada vez mais:
Porque metade de mim é abrigo,
Mas a outra metade é cansaço.


Que a arte nos aponte uma reposta,
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar:
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer,
Porque metade de mim é platéia,
E a outra metade é canção.


E que a minha loucura seja perdoada,
Porque metade de mim é amor,
E a outra metade também.

(Oswaldo Montenegro)