quarta-feira, 30 de setembro de 2009

"Mais do mesmo" por Vasco Graça Moura no Diário de Notícias

"O povo português acaba de demonstrar a sua fatal propensão para viver num mundo às avessas. Não há nada a fazer senão respeitá-la. Mas nenhum respeito do quadro legal, institucional e político me impede de considerar absolutamente vergonhosa e delirante a opção que o eleitorado acaba de tomar e ainda menos me impede de falar dos resultados com o mais total desprezo.
Só o mais profundo analfabetismo político, de braço dado com a mais torpe cobardia, explica esta vitória do Partido Socialista.
Não se diga que tomo assim uma atitude de mau perdedor, ou que há falta de fair play da minha parte. É timbre das boas maneiras felicitar o vencedor, mas aqui eu encontro-me perante um conflito de deveres: esse, das felicitações na hora do acontecimento, que é um dever de cortesia, e o de dizer o que penso numa situação como aquela que atravessamos, que é um dever de cidadania.
Opto pelo segundo. Por isso, quando profiro estas e outras afirmações, faço-o obedecendo ao imperativo cívico e político de denunciar também neste momento uma situação de catástrofe agravada que vai continuar a fazer-nos resvalar para um abismo irrecuperável.
Entendo que o Governo que sair destes resultados não pode ter tréguas e tenciono combatê-lo em tudo quanto puder. Sabe-se de antemão que o próximo Governo não vai prestar para nada!
É de prever que, dentro de pouco tempo, sejamos arrastados para uma situação de miséria nacional irreversível, repito, de miséria nacional irreversível, e por isso deve ser desde já responsabilizado um eleitorado que, de qualquer maneira, há--de levar a sua impudência e a sua amorfia ao ponto de recomeçar com a mais séria conflitualidade social dentro de muito pouco tempo em relação a esta mesma gente inepta a quem deu a maioria.
O voto nas legislativas revelou-se acomodatício e complacente com o status quo. Talvez por se tratar, na sua grande maioria, de um voto de dependentes directos ou indirectos do Estado, da expressão de criaturas invertebradas que não querem nenhuma espécie de mudança da vidinha que levam e que se estão marimbando para o futuro e para as hipotecas que as hostes socialistas têm vindo a agendar ao longo do tempo. O que essa malta quer é o rendimento mínimo, o subsídio por tudo e por nada, a lei do menor esforço.
Mas as empresas continuarão a falir, os desempregados continuarão a aumentar, os jovens continuarão sem ter um rumo profissional para a sua vida. Pelos vistos a maioria não só gosta disso, como embarcou nas manipulações grosseiras, nas publicidades enganosas, nas aldrabices mediáticas, na venda das ilusões mais fraudulentamente vazias de conteúdo.
A vitória foi dada à força política que governou pior, ao elenco de responsáveis que mais incompetentemente contribuiu para o agravamento da crise e para o esboroar da sustentabilidade, ao clube de luminárias pacóvias que não soube prevenir o desemprego, nem resolver os problemas do trabalho, nem os da educação, nem os da justiça, nem os da segurança, nem os do mundo rural, nem nenhuma das demais questões relevantes e relativas a todos os aspectos políticos, sociais, culturais, económicos e cívicos de que se faz a vida de um país.
Este prémio dado à incompetência mais clamorosa vai ter consequências desastrosas. A vida dos portugueses é, e vai continuar a ser, uma verdadeira trampa, mas eles acabam de mostrar que preferem chafurdar na porcaria a encontrar soluções verdadeiras, competentes, dignas e limpas. A democracia é assim. Terão o que merecem e é muitíssimo bem feito.
O País acaba de mostrar que prefere a arrogância e a banha de cobra. Pois besunte-se com elas que há-de ter um lindo enterro.
A partir de agora, só haverá mais do mesmo. Com os socialistas no Governo, Portugal não sairá da cepa torta nos próximos anos, ir-se-á afundando cada vez mais no pântano dos falhanços, das negociatas e dos conluios, e dentro de pouco tempo nem sequer será digno de ser independente. Sejam muito felizes."

- É, temos memória curta...


 


Encerramentos ilegais...

Este ano já foram feitas 70 participações criminais referentes a actividades irregulares de empresas, 45 das quais por encerramento ilegal no âmbito da crise, disse hoje o inspector-geral da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).
"No âmbito da crise empresarial acompanhámos desde Janeiro até 15 de Setembro de 2009, 1439 empresas, e neste domínio levantámos 523 autos-de-notícia, infracções que detectámos em incumprimento de formalidades nos despedimentos colectivos ou outras situações de lay-off", adiantou o inspector-geral da ACT, Paulo Morgado de Carvalho.

À margem de uma sessão pública sobre planos de contingência para a Gripe A nas empresas, organizada pela Associação Industrial Portuguesa (AIP), que hoje decorreu em Lisboa, o responsável máximo da ACT disse que mais de metade das participações criminais feitas este ano pela ACT - 45 de um total de 70 - tiveram origem em encerramentos ilegais de empresas, e que estão agora a ser investigadas pelo Ministério Público.

"No ano passado efectuámos 59 participações criminais, só 13 diziam respeito à crise empresarial. Temos muito mais participações neste ano. Isso não quer dizer que haja um volume acrescido nos últimos tempos, o que acontece é que os procedimentos começaram, o acompanhamento iniciou-se e há todo um desenvolvimento que é um corolário das diligências feitas pelos inspectores", sublinhou Paulo Morgado de Carvalho



domingo, 27 de setembro de 2009

Eleições





E o dia seguinte?

Pois muito bem, as campanhas eleitorais terminaram, acabaram os beijinhos e as palavras doces e agora? Quem ganha? E ganhando volta tudo ao mesmo e as promessas arrumam-se muito bem no fundo da gaveta para servirem para as próximas campanhas? Queremos mais, muito mais e bem feito!
Achamos todos que o investimento quer de empresários quer do governo tem de ser feito pois gera emprego e é isso que nós precisamos! Basta de pensarmos só em projectos gigantescos como o TGV e aeroporto (que são muito vistosos de facto, mas serão assim tão urgentes?) que proporcionam empregos mas por pouco tempo, nós precisamos de empresas pequenas, médias, tanto faz, queremos é emprego que acabe com o trabalho precário e de semi-escravatura como o que tem vindo a aumentar nos últimos anos! Invistam, mas façam-no bem! Queremos empregos dignos, queremos formação profissional (não aquela para inglês ver) mas formação que nos dê realmente ferramentas para um trabalho qualificado e nos proporcione salários em conformidade com as aptidões adquiridas!

Empenhem-se, enquanto governo de todos os portugueses como gostam de sublinhar, na dignificação da pessoa humana!
Queremos famílias felizes onde não falte o trabalho e o pão!
Queremos uma aposta forte na educação e não é só aquela que os livros ensinam, mas numa mais humanista que prepare os nossos jovens para um futuro onde caibam os números mas também o respeito pela pessoa humana! Ginásios onde para além do desporto lhes ensinem Yoga, meditação e solidariedade, acabem com incentivos à competição desenfreada! O respeito pelo coleguinha do lado que não corre tanto, dar-lhe a mão se for necessário!
Nos casos de negligência, abandono, maus-tratos físicos, carência sócio-económica, em que as crianças são entregues a famílias de acolhimento queremos que as crianças e a sua vontade seja respeitada nos tribunais (a Convenção dos Direitos Universais é para ser aplicada não é para estar só no papel) que Portugal assuma sem medo a responsabilidade de intervir em casos mal resolvidos de entrega de crianças a quem não as ama e respeita. Que a adopção seja incentivada e mais célere. Que fazem tantas crianças em Instituições? Publicitem para que a sociedade adormecida acorde e aja, dêem-lhes incentivos em termos de redução de preços em infantários por exemplo.
Apostem nas crianças, vão ser os governantes e os empresários de amanhã, querem um mundo melhor? Então apostem nelas, mas apostem bem… não se percam com futilidades apenas para alimentarem o ego, como as grandes obras que  não educam nem enchem a barriga aos milhares de desempregados! Apostem nas crianças, na sua boa formação para que venham a ser cidadãos de sucesso mas onde haja sempre espaço para um coração gigantesco!
Queremos acima de tudo que apliquem bem os nossos impostos, os vossos filhos e netos também vão fazer parte desse mundo que todos queremos melhor!

Governem, mas façam-no bem!

Universalista


sábado, 26 de setembro de 2009

Notícias do Brasil...e do mundo!



 
Direito à cidade - 24/08/2009
                                * Padre Alfredo J. Gonçalves, CS

Quem são os habitantes da chamada cracolândia? Pela idade, eles são crianças e adolescentes. Na realidade, porém, passaram da infância à vida adulta de forma abrupta e não raro traumática. Grande parte rompeu com a própria família pelos motivos mais diversos e terminaram definitivamente na rua. Não poucos tem na origem pais migrantes de outros estados do território nacional.

Sós e perdidos, eles foram se juntando, um com o outro, estes com um novo grupo, e assim por diante. Aos poucos, formaram pequenos bandos e ocupando a região central da cidade de São Paulo, nas imediações da antiga rodoviária. Escorraçados de um lado para o outro, aves feridas e errantes, acabaram se ocultando nesses lugares sórdidos e escuros da cidade mais populosa do país.

A rua é selvagem, cruel, tem suas exigências. Requer malabarismos sutis e sutis estratégias de sobrevivência. A comida, a roupa, o cobertor, o lugar para dormir ou para fazer as necessidades básicas. Requer também exercer a mendicância por migalhas de afeto, como um cão ou algum transeunte solitário. Violência e solidariedade se mesclam. Mas a rua requer, ainda, manter vivos sonhos e esperanças, o sentido da própria existência, enfim a vida.

Aí entra o cigarro, o álcool, a droga e principalmente o crack. É dura a luta diária pela droga salvadora. A “muamba” é cara e nesse comércio clandestino dívida é paga com a morte. Por trás disso, há a manipulação de adultos experimentados no mundo do tráfico, há o crime organizado.
Hoje as autoridades pretendem acabar com a cracolândia. A proposta faz parte do processo de revitalização do centro, o que inclui a “limpeza” da área. Os meninos e meninas de rua converteram-se em lixo a ser removido. São obrigados a partir para as ruas adjacentes, de onde são novamente banidos com água, pedras, palavrões, pontapés, etc.A grande metrópole, negando-lhes uma cidadania digna e justa, se tornou refém de suas crianças e adolescentes.

O mesmo se poderia dizer dos imigrantes indocumentados, vindos dos países limítrofes. Em ambos os casos, o poder público pretende apagar o fogo soprando na fumaça. A cracolândia e as oficinas de costura clandestina, por exemplo, fazem parte do efeito, não da causa. Os meninos e meninas abandonados, como também os imigrantes irregulares, são o resultado de uma exclusão sócio-econômica muito mais ampla, profunda e complexa. Enquanto uns são filho de pais e mães igualmente abandonados, outros partiram de sua terras de origem como gente expatriada.

Além de trabalho, saúde, moradia, segurança e transporte para os pais, onde estão as escolas de boa qualidade para os filhos? Onde estão as áreas de lazer para as crianças e adolescentes se encontrarem e exercitarem suas energias e aptidões? Onde está o incentivo ao esporte, à música, à dança, ao balé. Por que a Lei dos Estrangeiros segue tão rígida e excludente? Onde está a famosa acolhida brasileira?

E com mais veemência cabe perguntar pela responsabilidade da família, da escola e das igrejas.Na igreja católica por exemplo, que projetos são desenvolvidos junto a essa população tão carente e vulnerável de São Paulo? Por mais que sejam obras necessárias, não basta a Casa do Migrante, a Pastoral dos Migrantes ou o Orfanato Cristóvão Colombo! Toda a Igreja e toda a Sociedade são responsáveis pelas crianças e pelos estrangeiros.

*Pároco de São Paulo.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009





O Mundo que Eu Respiro

Quando respiro é o som
das gaivotas que entra
e sai pelo nariz

Quando respiro é o
canto dos pássaros que
entra e sai pela minha boca

É que o mundo
tenho dentro de mim.



Susana Raquel Almeida Reis, 9 anos

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Relembrando ...



 Direitos da Criança



 

"A Convenção sobre os Direitos da Criança está assente entre outros
no  princípio da não discriminação (nos termos do qual os
Estados Partes devem assegurar que as crianças sob a sua jurisdição gozam todos os seus direitos, não devendo nenhuma criança ser vítima de
discriminação), do interesse superior da criança (deve consistir uma
consideração primordial sempre que as autoridades de um Estado tomem
decisões que afectem a criança), do direito à vida, sobrevivência e
desenvolvimento e, finalmente, do respeito pelas opiniões da criança (que se prende com o direito da criança de exprimir livremente a sua opinião sobre as questões que lhe respeitem, sendo devidamente tomadas em consideração as opiniões da criança, de acordo com a sua idade e maturidade). Além disso, a Convenção inclui inúmeras disposições que garantem os direitos da criança, nomeadamente contra todas as formas de violência."




"Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado."


Sophia de Mello Breyner




 


"Um ambiente tenso, com muitas lágrimas de revolta e gritos, à porta da Segurança Social de Braga, rodeou, esta segunda-feira, a entrega de uma menina de seis anos, filha de uma imigrante russa, à mãe biológica.
Alexandra estava à guarda de uma família de acolhimento há cinco anos e foi entregue ontem à mãe biológica, dando sequência a uma decisão judicial de 2008. A criança foi levada, de manhã, para a porta da Segurança Social, onde era aguardada por membros da família de acolhimento e muitos populares. A partir daí, o ambiente intensificou-se, com a menina, de ascendência russa, mas nascida em Braga, a recusar sair do carro, chorando e dizendo que não queria ir com a mãe biológica.
Entre o choro da criança e os gritos da família e populares, foi necessária a intervenção de uma técnica da Segurança Social para tentar acalmar a menor. A isto, junte-se o facto de a família de acolhimento se ter recusado a entregar a menina, pedindo para que a mãe biológica a fosse buscar ao carro. Quando Alexandra foi retirada do veículo, dezenas de populares amontoaram-se e tentaram impedir que fosse entregue. A criança acabou por entrar acompanhada da família de acolhimento. As condições em que se deu a entrega da criança foram muito criticadas pelos advogados das duas partes. João Araújo, representante da família de acolhimento, lamenta que o processo não tenha sido mais salvaguardado, para proteger a criança, e adianta que pediu a presença da Polícia.
A criança e a mãe biológica viajaram para Lisboa, ontem, na companhia de um representante do Consulado russo. Amanhã, embarcam para o Rússia, onde vão viver com a avó da criança, a 300 quilómetros de Moscovo. A família de acolhimento exige que a Embaixada portuguesa continue a acompanhar a criança, que apenas fala Português. O Consulado russo garante que o processo continuará a ser acompanhado pelos serviços sociais daquele país. A criança tinha sido entregue a João Pinheiro e Florinda Vieira, de Barcelos, pela mãe biológica, há cinco anos. Os problemas de alcoolismo e prostituição que afectariam a cidadã russa levaram-na a alegar incapacidade para a criar . O pai de acolhimento não se conforma com a decisão: "Se um animal é abandonado, a pessoa vai presa; se uma criança é abandonada, não acontece nada e até é premiada?".
"Agora, pouco ou nada há a fazer"
Paulo Almeida, jurista especializado em Direito de Família e com experiência na área da adopção, não tem dúvidas: "O objectivo era não deixar a menina sair. Creio que o advogado tentou protelar essa decisão, mas não conseguiu. Agora, pouco ou nada há a fazer". O advogado tem uma visão particular sobre este caso: "Mesmo que haja uma decisão em contrário na Justiça portuguesa, nunca o Estado russo a irá cumprir. Por isso é que digo que o fundamental era não deixar sair a criança". Já Mário Albuquerque, professor na área da Psicologia, fica mais preocupado com o futuro da criança.
"A adaptação não será fácil. Um país novo, uma língua desconhecida e completamente desenraizada não são, propriamente, os melhores motivos de integração da menina". Mário Albuquerque não quer entrar em questões judiciais: "Em termos psicológicos, acho que vão ficar sequelas, se não existir acompanhamento". O especialista é da opinião de que, "em casos como este, deveria haver um período transitório, seja para melhor adaptação da família biológica seja para uma preparação da menor".
O advogado Paulo Almeida fala em decisões que "demonstram falta de bom senso", embora salvaguarde não saber se foi o caso. Até porque os juízes têm sempre "todos os dados na mesa e tentam tomar as melhores decisões que, nestes casos, podem não ser definitivas, até porque há variáveis que podem mudar com o tempo". Jornal de Notícias




- Hoje passados quatro meses as autoridades russas pouco ou nada fizeram para ajudar esta criança que vive numa casa sem condições (nem casa de banho têm) com um avô alcoólico, tio alcoólico e mãe alcoólica, vivendo todos à custa da avó (uma vez que ninguém trabalha) que para além da reforma pequena faz um trabalho de contabilista numa instituição qualquer! Foi-lhes oferecido o que muita gente gostaria de ter para regressarem a Portugal e terem uma vida digna, recusaram. Triste destino o desta criança que se vê abandonada por todos e a ter que interagir com pessoas que não conhece e não ama! Que dirigentes políticos são estes que permitiram toda esta trama sem mostrarem qualquer interesse pelo caso? Não se trata de um animal (mesmo que fosse merecia todo o respeito) mas de uma criança!!! 
Universalista


ver vídeo
http://yar.kp.ru/daily/24365/549465/




domingo, 20 de setembro de 2009

Mia Couto in SAVANA 13.12.2003



Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro» dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele. A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos “ricos”. Aquilo que têm, não detêm. Pior, aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados.

Necessitariam de forças policiais à altura. Mas forças policiais à altura acabariam por os lançar a eles próprios na cadeia. Necessitariam de uma ordem social em que houvesse poucas razões para a criminalidade. Mas se eles enriqueceram foi graças a essa mesma desordem.

O maior sonho dos nossos novos-ricos é, afinal, muito pequenito: um carro de luxo, umas efémeras cintilâncias. Mas a luxuosa viatura não pode sonhar muito, sacudida pelos buracos das avenidas. O Mercedes e o BMW não podem fazer inteiro uso dos seus brilhos, ocupados que estão em se esquivar entre chapas muito convexos e estradas muito côncavas. A existência de estradas boas dependeria de outro tipo de riqueza Uma riqueza que servisse a cidade. E a riqueza dos nossos novos-ricos nasceu de um movimento contrário: do empobrecimento da cidade e da sociedade.

As casas de luxo dos nossos falsos ricos são menos para serem habitadas do que para serem vistas. Fizeram-se para os olhos de quem passa. Mas ao exibirem-se, assim, cheias de folhos e chibantices, acabam atraindo alheias cobiças. O fausto das residências chama grades, vedações electrificadas e guardas privados. Mas por mais guardas que tenham à porta, os nossos pobres-ricos não afastam o receio das invejas e dos feitiços que essas invejas convocam.

Coitados dos novos ricos. São como a cerveja tirada à pressão. São feitos num instante mas a maior parte é só espuma. O que resta de verdadeiro é mais o copo que o conteúdo. Podiam criar gado ou vegetais. Mas não. Em vez disso, os nossos endinheirados feitos sob pressão criam amantes. Mas as amantes (e/ou os amantes) têm um grave inconveniente: necessitam ser sustentados com dispendiosos mimos. O maior inconveniente é ainda a ausência de garantia do produto. A amante de um pode ser, amanhã, amante de outro. O coração do criador de amantes não tem sossego: quem traiu sabe que pode ser traído.

Os nossos endinheirados-às-pressas não se sentem bem na sua própria pele. Sonham em ser americanos, sul-africanos. Aspiram ser outros, distantes da sua origem, da sua condição. E lá estão eles imitando os outros, assimilando os tiques dos verdadeiros ricos de lugares verdadeiramente ricos. Mas os nossos candidatos a homens de negócios não são capazes de resolver o mais simples dos dilemas: podem comprar aparências, mas não podem comprar o respeito e o afecto dos outros. Esses outros que os vêem passear-se nos mal-explicados luxos. Esses outros que reconhecem neles uma tradução de uma mentira. A nossa elite endinheirada não é uma elite: é uma falsificação, uma imitação apressada.

A luta de libertação nacional guiou-se por um princípio moral: não se pretendia substituir uma elite exploradora por outra, mesmo sendo de uma outra raça. Não se queria uma simples mudança de turno nos opressores. Estamos hoje no limiar de uma decisão: quem faremos jogar no combate pelo desenvolvimento? Serão estes que nos vão representar nesse relvado chamado “a luta pelo progresso”? Os nossos novos ricos (que nem sabem explicar a proveniência dos seus dinheiros) já se tomam a si mesmos como suplentes, ansiosos pelo seu turno na pilhagem do país.

São nacionais mas só na aparência. Porque estão prontos a serem moleques de outros, estrangeiros. Desde que lhes agitem com suficientes atractivos irão vendendo o pouco que nos resta. Alguns dos nossos endinheirados não se afastam muito dos miúdos que pedem para guardar carros. Os novos candidatos a poderosos pedem para ficar a guardar o país. A comunidade doadora pode irás compras ou almoçar à vontade que eles ficam a tomar conta da nação. Os nossos ricos dão uma imagem infantil de quem somos. Parecem criancas que entraram numa loja de rebuçados. Derretem-se perante o fascínio de uns bens de ostentação.

Servem-se do erário público como se fosse a sua panela pessoal. Envergonha-nos a sua arrogância, a sua falta de cultura, o seu desprezo pelo povo, a sua atitude elitista para com a pobreza. Como eu sonhava que Moçambique tivesse ricos de riqueza verdadeira e de proveniência limpa! Ricos que gostassem do seu povo e defendessem o seu país. Ricos que criassem riqueza. Que criassem emprego e desenvolvessem a economia. Que respeitassem as regras do jogo. Numa palavra, ricos que nos enriquecessem. Os índios norte-americanos que sobreviveram ao massacre da colonização operaram uma espécie de suicídio póstumo: entregaram-se à bebida até dissolverem a dignidade dos seus antepassados. No nosso caso, o dinheiro pode ser essa fatal bebida. Uma parte da nossa elite está pronta para reallzar esse suicídio histórico. Que se matem sozinhos. Não nos arrastem a nós e ao país inteiro nesse afundamento."




Nota minha:

Este texto aplica-se a qualquer país incluindo Portugal!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Naturalidade"

Rui Knopfli
Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
européias
e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem raiz a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável ... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Estrela Pequenina

Tocadores, vinde tocar
Marimbas ngomas, quissanges
Vinde chamar nossa gente
P’rá beira do grande Mar!
Sentai-vos, irmãos, escutai:
Precisamos entender
As falas da natureza,
Dizendo da nossa dor,
Chorando nossa tristeza.
Ora escutai, meus irmãos:
Aquele Sol no poente,
Vermelho como uma brasa
Não é sol somente. Não!
É coágulo de sangue
Vertido por angolanos
Que fizeram o Brasil!
Ouvi o mar como chora,
Ouvi o mar como reza...
Olhai a noite que chega,
Veludo negro tecido
De mil pedaços de pele
Arrancados a chicote,
Ai! cortados a chicote,
Do dorso da nossa gente,
No tempo da escravatura
Noite é luto
De que Deus cobre o mundo
Com dó de nós...
Disco de prata luzente
Sobe ligeiro no espaço.
Sabei que a luta fulgente
Contem lágrimas geladas
Por pobres negros choradas...
Pergunta-me a multidão,
Sentada à beira do Mar:
_Agora, dizei, irmão,
Daquela pálida estrela
Tão pequenina e humilde
Que brilha no nosso céu
Qual é o significado?
Talvez seja finalmente
Deus a olhar para a nossa gente...
Mauricio Gomes

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Alda Lara

NOITE
Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tungurúluas pelos ares!...
Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...
Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das histórias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...
E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...
Por isso as noites são tristes...
Endoidadas, tenebrosas, langorosas,
mas tristes... como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...
É que os meninos brancos...,
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...
Os meninos-brancos... esqueceram!...

Anna Akhmatova


SEPARAÇÃO
Nem semanas nem meses - anos
levamos nos separando. Eis, finalmente,
o gelo da liberdade verdadeira
e as cinzentas guirlandas na fachada dos templos.
Não mais traições, não mais enganos,
e não me terás mais de ficar ouvindo até o amanhecer,
enquanto flui o riacho das provas
da minha mais perfeita inocência.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que não quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.


O homem


Era uma tarde do fim de Novembro, já sem nenhum Outono.
A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.
Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.
Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana.
Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança. Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.
Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.
Como contar o seu gesto?
Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.
Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.
A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.
O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.
Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.
Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.
Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.
Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.
Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.
Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vívido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

- Pai, Pai, por que me abandonaste?

Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:


- Pai, Pai, por que me abandonaste?


Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.
E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.
Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.
Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.
Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.
A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.
Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.
Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.

**

Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.

 

(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Contos Exemplares)



domingo, 6 de setembro de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

A minha visão sobre a Globalização e os países mais desfavorecidos particularmente o Corno de África

Em África, como todo o mundo sabe, o contínuo reacender dos conflitos armados, a falta de saneamento básico, a doença, são um dos impulsionadores de situações dramáticas tais como a pobreza extrema principalmente na África Subsaariana. Desde os conflitos étnicos e religiosos entre clãs e tribos à fome e subnutrição em vários países africanos acresce a doença que vai alastrando epidemicamente devido aos poucos meios na área da saúde e à falta de informação e formação das populações.
São variadíssimas as causas da fome no mundo, como as alteraçoes climáticas (com as secas, as inundações) os terramotos as pragas… mas as causas humanas são, a meu ver, as mais devastadoras e cruéis. A instabilidade política,a corrupção, a ineficácia dos governantes, a má administração de recursos naturais, a guerra, a deficiente planificação agrícola!
O mundo confrontar-se á com problemas demográficos nos próximos anos, uns pela baixa percentagem de fertilidade e consequente envelhecimento das populações e outros com explosões demográficas mas confrontados com a doença e falta de estruturas básicas.
O processo de globalização acabou com os limites geográficos, mas não eliminou a fome, a miséria e os problemas políticos de milhões de globalizados que vivem (ou sobrevivem) abaixo da chamada linha da pobreza absoluta.
Estima-se que em cada 3,5 segundos morra um ser humano de fome no mundo sendo que a maioria são crianças num mundo globalizado onde os excedentes de produção são atirados ao lixo porque as normas assim o exigem!
A Globalização com as suas regras de trocas comerciais e investimentos beneficia muitos países mas outros há, que não! Alguns países serão cada vez mais excluídos dessas trocas e investimentos. Começará a haver um fosso cada vez maior entre os países desenvolvidos e a África Subsaariana, do Norte e Médio Oriente .Embora considere positiva a ideia de um mundo sem fronteiras, onde todos fazemos parte de uma comunidade humana alargada (em teoria pelo menos) e pressupondo também que  a multiplicação das trocas comerciais e tecnológicas, a melhoria das comunicações internacionais se alargariam a todos os países e  os ajudariam a evoluir em termos económicos, não vejo que isso esteja de facto a acontecer  pelo menos de forma igual para todos… A Globalização pressupõe indivíduos conhecedores dos seus direitos e deveres, livres, com autonomia, para serem cidadãos fortes  e  a participarem assim consciente e activamente na política global, o que não acontece nos países subdesenvolvidos (e não só…) onde a falta de informação e formação é abismal!
A Globalização baseada na revolução tecnológica vem incentivando, no mundo ocidental, as empresas a competir umas com as outras, estas para sobreviverem (principalmente as pequenas e médias) despedem os funcionários aumentando o desemprego e aumentando o lucro, algumas vão-se instalando nos países onde a mão-de-obra é mais barata continuando assim a exploração dos que já são os mais pobres dos pobres. Outro ponto negativo da Globalização é a perigosidade de uma sociedade tecnocrática e consumista, como a do mundo ocidental, se ir alargando e impondo regras globais de comportamento e económicas que pouco têm a ver com outras culturas, outros países. Terá que haver sempre o respeito pela pessoa humana e pela diversidade cultural de cada país.
Porém no mundo desenvolvido essa consciencialização de liberdade de que falava acima, autonomia, conhecimento das leis e da participação na vida global também não é notória uma vez que o indivíduo se deixou escravizar de tal forma pelo consumismo desenfreado pela massificação de valores e comportamentos, que vai adquirindo dos meios de comunicação, pela aculturação.  Passou a ser  escravo do aperfeiçoamento técnico e dos meios de comunicação planetários agindo de modo padronizado.
“O povo, as massas, os grupos e classes sociais são induzidos a realizar directrizes estabelecidas pelas elites modernizantes e deliberantes” como dizia Octávio Ianni sociólogo brasileiro.
A Carta da Terra das Nações Unidas é um documento belíssimo que exalta o dever de nos unirmos para formar uma sociedade global durável, com alicerces no respeito pela natureza, pelos direitos humanos universais, pela justiça económica e pela paz… pela protecção da vitalidade, da diversidade e da beleza da Terra como um dever sagrado… devido a um aumento sem precedentes da população humana, que sobrecarregou os sistemas económicos e sociais, a obrigatoriedade de formarmos uma sociedade global para cuidarmos da Terra e cuidarmos uns dos outros!
Em alguns países da Ásia, América e África, segundo algumas estimativas existem cerca de 300 mil crianças soldados a lutar em todo o mundo, seja para grupos rebeldes ou para tropas governamentais. Durante a guerra civil na Serra Leoa, nos anos 90, mais de 15 mil crianças foram forçadas a pegarem em armas. Crianças sem infância. Onde está a Globalização tão sonhada da igualdade e do respeito, porque se comercializam ainda tantas armas? E o tráfico porque não se põe fim a ele?
No Camboja, Brasil, Tailândia onde, anualmente, chegam milhares de turistas entre eles, um número desconhecido de holandeses, italianos, portugueses, alemães entre outros, à procura de sexo com menores, que devido à pobreza e miséria se dedicam à prostituição ou são vendidas pelos próprios familiares. O mesmo acontece em África com mulheres, crianças e homens como mão-de-obra barata em semi-escravatura! O mundo Globalizado devia tomar medidas radicais e urgentes em relação a este novo tipo de negócio e de turismo desumano! Todos os dias 2 milhões de crianças são obrigados a prostituir-se devido à fome extrema! É isto que exportamos, porque fecham os olhos os governantes destes países?
Haverá concerteza o lado positivo mas a meu ver a Globalização serviria para pôr fim a tanta desigualdade que existe não só no Corno de África mas por todo o mundo!
Tenho esperança num Mundo melhor em que a política seja feita por pessoas íntegras que ponham os interesses das nações e dos cidadãos acima de qualquer outro interesse mesquinho, que invistam sériamente na Educação, Agricultura e Pescas (de forma planeada e não desenfreada e sem normas ambientais), na Saúde. Que deixe de imperar o lucro fácil, a ganância pessoal, o corre-corre da política para a administração de grandes empresas  (sempre os mesmos) o status e que esteja SEMPRE em primeiro plano a pessoa humana, a natureza e os interesses nacionais! 

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Philippe Jaroussky



Imagina-te num barco rabelo, um copo de Porto a contemplar a maravilhosa paisagem do Douro e a ouvir Jaroussky...

Willie Dixon




SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

A PAZ SEM VENCEDOR E SEM VENCIDOS
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos

EUGÉNIO DE ANDRADE

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.



quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Rabindranath Tagore

 
~ Flor de Lótus ~
No dia em que a flor de lótus desabrochou
A minha mente vagava, e eu não a percebi.
Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.
Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.
Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro
De um perfume no vento sul.
Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.
Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.
Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim
Que ela era minha, e que essa perfeita doçura
Tinha desabrochado no fundo do meu coração.

Caricaturas do Jazz

Arturo Sandoval i Dizzy Gillespie - JAZZ



quarta-feira, 2 de setembro de 2009

LEON URIS
Em suas 600 páginas, sua obra-prima relata, de forma épica, a história que antecedeu a criação do Estado de Israel, desde o surgimento do sionismo, no final do século XIX, até a independência, em 1948.
Descrevendo os combatentes judeus clandestinos como heróis moralmente superiores, Uris contribuiu para moldar uma imagem positiva do Estado de Israel entre os judeus americanos. Estes passaram a sentir orgulho de ser judeus e de ter uma ligação com a jovem nação.
Nos anos seguintes, Exodus teve mais de cinquenta edições, foi traduzido para 35 idiomas e vendeu mais de dez milhões de cópias. Em 1960, a obra foi transformada em filme pelo director Otto Preminger, com Paul Newman no papel do protagonista, tornando-se um grande sucesso cinematográfico.
Uris vê na criação do Estado de Israel o refúgio final para os judeus que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial e aos horrores do Holocausto. Acredita ser esta a história do maior milagre dos tempos modernos, sem paralelo na história, com o ressurgimento de uma nação após dois mil anos de dispersão, permitindo a volta dos judeus para casa "após séculos de abusos, humilhações, torturas e assassinatos, para criar um oásis no deserto, edificado com seus esforços e seu sangue...".
Dizia também: "Mostrei o outro lado da moeda e escrevi sobre o meu povo que, com nada além de coragem, conseguiu realizar conquistas impossíveis... Exodus é uma obra sobre homens que lutam, que não pedem desculpas pelo fato de ter nascido judeus ou pelo direito de viver com dignidade". Sua obra sobre os imigrantes europeus a caminho da Terra de Israel, com sua luta até o estabelecimento do Estado, inspirou várias gerações de judeus. De acordo com o professor Sandford Pinsker, "a imagem mítica de Israel que ele apresenta continua viva na cabeça de muitos judeus americanos".
Numa entrevista concedida à agência de notícias Associated Press, em 1988, Uris afirmou que Exodus se tornara uma espécie de Bíblia para os dissidentes judeus da ex-União Soviética, onde circulava clandestinamente e era citado como "o livro". Mas há também historiadores críticos, como o israelita Tom Segev, que acreditam que o fato de Uris ter idealizado e transformado o sionismo em um mito acabou distorcendo-o e afastando-o da realidade, causando mais danos do que benefícios.
A publicação de cada livro era precedida por um longo e obsessivo trabalho de pesquisa. Enérgico e destemido, Leon Uris foi um escritor aventureiro, que viajava incansavelmente, às vezes arriscando sua própria vida. Em 1956, por exemplo, foi ao Oriente Médio realizar as pesquisas para escrever Exodus e acabou cobrindo a Crise do Suez, entre Israel e o Egipto, como jornalista e enviado especial.
Uris nasceu em 1924, em Baltimore, Maryland, e cresceu em Norfolk, Virgínia. Sobre si mesmo, dizia: "Costumava me ver como um menino judeu muito triste, isolado em uma cidade do sul, baixinho e asmático... Mas relendo minha correspondência, vejo que, na realidade, eu era muito tenaz. Aproveitava qualquer oportunidade para melhorar de vida e podia ser implacável. Incomodei muita gente durante a minha ascensão".
Seu pai era um modesto imigrante da Rússia czarista, que vivera um ano em Israel antes de ir para os Estados Unidos. O próprio nome Uris seria uma abreviação e americanização do sobrenome Yerushalmi (que quer dizer "de Jerusalém"). Sobre seu pai, costumava dizer: "Era, na verdade, um fracassado que acumulava uma derrota atrás da outra... Posso afirmar sem hesitação que, até onde consigo me lembrar, eu estava determinado a não ser um fracasso".
Uris, que quando garoto era entregador de jornais, nunca foi bom aluno e não conseguiu terminar o liceu. Durante a Segunda Guerra Mundial alistou-se como fuzileiro naval. Posteriormente, começou a enviar artigos para revistas, publicando a sua primeira matéria em 1951. Desde então, não parou mais de escrever.
Seu primeiro romance, uma história sobre fuzileiros navais, é Grito de Batalha, publicado em 1953 e adaptado para o cinema. Dois anos depois foi a vez de The Angry Hill, um livro de espionagem ambientado na Grécia durante a Segunda Guerra Mundial. Exodus foi publicado em 1958 e transformado em filme em 1960.
Em seguida, o autor viajou pela Europa Oriental para entrevistar sobreviventes do Holocausto para seu novo romance Mila 18, sobre o Levante do Gueto de Varsóvia, ocorrido durante a Segunda Guerra. A crítica não deu muita atenção a este romance, embora Uris o considere sua mais ambiciosa e orgulhosa realização, escrita unicamente pelo desejo de contar a história, sem visar o sucesso editorial. Em 1967 veio Topázio, uma história de espionagem envolvendo os serviços secretos da França. Esta obra foi adaptada para o cinema por Alfred Hitchcock.
Na década de 70, Uris alcançou grande fama com Trindade, um romance épico e enciclopédico sobre o conflito e a luta da Irlanda para conquistar a independência. É a saga de três famílias, desde meados do século XIX até o Levante da Páscoa, em 1916. Este livro rendeu-lhe o prémio do Instituto Irlandês John F. Kennedy, em 1976.
Seu livro mais pessoal, quase autobiográfico, O Estreito de Mitla, foi publicado em 1988, e aborda a vida do autor e de sua família. O livro começa em Israel, em 1956, durante a crise do canal de Suez, e é centrado na experiência do personagem Gideon Zadok, um escritor que cobre o conflito como jornalista. O romance recupera a trajectória dos ancestrais de Zadok até 1888, com vários parentes relatando suas histórias. "Buscava um legado afirmava para deixar para meus filhos e netos"."Queria deixar-lhes a história do que aquele velho havia feito e queria que soubessem que ele não era infalível... Todos nós passamos a segunda metade da vida colhendo o que plantamos na primeira.”
O lançamento de seu último trabalho, intitulado O’Hara’s Choice, estava previsto para Outubro de 2003, informou sua ex-mulher, Jill Uris. Mas o estado precário de sua saúde impediu Uris de fazer planos para promover o livro. Sua última obra fala sobre os fuzileiros navais e sua luta para se afirmar após a Guerra Civil. Sua primeira obra, Grito de Batalha, também falava sobre os fuzileiros. Assim, segundo seu primo Hershel Blumberg, "ele sabia que este seria seu último trabalho, portanto, quis concluir por onde havia começado: queria fechar o círculo".
Uris casou-se três vezes e teve cinco filhos. A crítica literária não foi muito indulgente com ele, talvez "pelo excesso de exposições e informações", dizia Pete Hamill, em The New York Times Book Review, mas "nada disso importa se você mergulha na narrativa... Uris certamente é nosso melhor contador de histórias". Independentemente do valor literário de sua obra, Uris foi muito querido por um público fiel de leitores.