domingo, 17 de junho de 2012

ANTÓNIO GIL, in OBRA AO RUBRO (Lua de Marfim, 2012)


Se a solidão se materializa até se tornar um corpo
ffamiliar, o mínimo contacto com a pele basta para que os
lençóis se ericem, transubstanciando seus vincos em
crispadas lâminas de gelo


(vai e percorre célere o parque desertado abraçando,
demorado, as árvores que saibam e te queiram dar
notícias do sol…)

domingo, 27 de maio de 2012





MIA COUTO, in RAIZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS (Caminho, 2009)

PRIMEIRA PALAVRA

Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios humedeça
a primeira palavra do teu corpo

(1980)

*

Óleo sobre tela: Finally Feeling the Light, de Kathaleen Madison Moore

domingo, 20 de maio de 2012

quinta-feira, 17 de maio de 2012

quarta-feira, 16 de maio de 2012




Fernando Pessoa
Poesias Inéditas


Bem, hoje que estou só e posso ver

Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
Quanto se o for, serei em vão,
Hoje, vou confessar, quero sentir-me
Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
Por não ter procedido bem.

Falhei a tudo, mas sem galhardias,
Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas urtigas dos meus dias
A flor de parecer feliz.

Mas fica sempre, porque o pobre é rico
Em qualquer cousa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico.
Escrevo-o para o lembrar bem.

terça-feira, 15 de maio de 2012