sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Cecília Meireles



MORRO DO QUE HÁ NO MUNDO

Morro do que há no mundo:
do que vi, do que ouvi.

Morro do que vivi.


Morro comigo, apenas:

com lembranças amadas,

porém desesperadas.


Morro cheia de assombro

por não sentir em mim

nem princípio nem fim.


Morro: e a circunferência

fica, em redor, fechada.
Dentro sou tudo e nada.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

RECORDANDO JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS



 
Os putos


Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.


Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.


Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.


As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo


Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.


José Carlos Ary dos Santos


domingo, 15 de novembro de 2009

Machado de Assis


SONETO DE NATAL
Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, -
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Em Louvor das Crianças




Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.

A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.

O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.


Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'






quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Verdes são os Campos




Verdes são os campos,
De cor de limão:

Assim são os olhos

Do meu coração.
Campo, que te estendes

Com verdura bela;

Ovelhas, que nela

Vosso pasto tendes,

De ervas vos mantendes

Que traz o Verão,

E eu das lembranças

Do meu coração.

Gados que pasceis

Com contentamento,

Vosso mantimento

Não no entendereis;

Isso que comeis

Não são ervas, não:

São graças dos olhos

Do meu coração.


Luís Vaz de Camões



A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal soa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento,

A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,

A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,

Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,

Onda que o vento nos mares,

Uma após outra lançou,
A vida - pena caída

Da asa da ave ferida

De vale em vale impelida

A vida o vento levou!
João de Deus

domingo, 8 de novembro de 2009

"Eu e os meus irmãos"



As histórias de luta e sobrevivência dos "órfãos de SIDA" em Moçambique.


O HIV/SIDA é dos maiores flagelos das sociedades contemporâneas, atingindo sobretudo países em que a pobreza é avassaladora. O VIH/SIDA e a pobreza extrema são duas realidades que se potenciam.
Moçambique situa-se entre os oito países do mundo com maior taxa de prevalência estimada de VIH em adultos em idade produtiva. A situação do VIH/SIDA na Província de Gaza é cada vez mais dramática, caracterizando-se por um aumento do número de novas infecções à medida que o tempo vai passando. De acordo com os dados da última ronda de Vigilância Epidemiológica de VIH, em 2007, divulgados pelo Ministério da Saúde, o distrito de Bilene/Macia, pertencente a Gaza, passou a ser afectado pela epidemia com a taxa de prevalência de VIH estimada em 27%.
A experiência das COV’s (Crianças Orfãs e Vulneráveis) varia significativamente entre famílias, comunidades e países. As crianças são indirectamente e directamente afectadas por esta doença. Indirectamente, quando as suas comunidades, e os serviços que essas comunidades fornecem, são levados ao limite pelas consequências da epidemia VIH/SIDA. O VIH/SIDA afecta directamente a criança praticamente todos os aspectos do desenvolvimento infantil. As COV’s estão no mais alto risco de perder a sua formação escolar, o acesso à saúde, de viver em casas com menos segurança alimentar (desnutrição), de apresentarem fraco desenvolvimento físico, ansiedade/depressão e maior exposição ao VIH. Além disso a epidemia reforça a marginalização e a destruição, e coloca os encargos da perda, medo e responsabilidades que geralmente são dos adultos sobre as crianças.
Entre estatísticas, debates, uma infinidade de documentos que se encontram em tudo o que é sítio em relação a esta problemática, nada há como conhecer e entrar na realidade dos protagonistas destas histórias, ver a força que têm todos os dias em que se levantam e não sabem se sequer irão comer para repôr todas as energias que serão gastas nesse dia, não sabem o que será a sua vida ou a dos seus filhos, irmãos, mas as forças para sorrir e lutar por cada dia não se esgotam... "nunca tiveram água ou electricidade, rádio ou televisão"... e há quem eleja como falta capital uma bola de futebol, e quando lhes perguntamos o que lhes faz falta, a resposta é "nada, nada. Só... nada, nada, nada... Está tudo bom, sim..." com um sorriso inspirador.

http://crescerdemaosdadas.blogspot.com/






“Condenados a prisão perpétua”

Isabelinha de 3 anos e Lídia de 8, estão institucionalizadas, foram retiradas aos pais por negligência e abandono. A mãe, mulher de 43 anos, teve 8 filhos, todos em instituições alguns já tiveram filhos que seguiram o mesmo destino. Para a Isabelinha e Lídia havia um casal interessado em ficar com as duas meninas, começou a tratar-se da adopção para estas crianças. A mãe insurgiu-se e em tribunal ficou decidido que as mesmas não seriam adoptadas, privilegiou-se os interesses da mãe. Que interesses são estes que se sobrepõem ao bem-estar, ao direito à educação, a um lar, à felicidade dos próprios filhos e os condena a uma prisão perpétua??? As meninas foram condenadas pelo tribunal e pela própria “mãe”!


Quantas crianças vivem em instituições até serem adultas porque os pais não permitem a adopção mas também nada fazem para ter estas crianças junto de si ou pelo menos visitá-las com frequência demonstrando-lhes que de facto as amam? Que pais são estes que não amando não permitem que os filhos sejam amados por quem quer tomar conta deles???


Que leis são as deste país que privilegiam os interesses dos pais biológicos ao invés de respeitarem e salvaguardarem os da criança???


Que fazem os nossos governantes, os nossos políticos, para quem as batalhas verbais na Assembleia são mais importantes, não se dando ao trabalho de propor leis que protejam estes pequeninos seres?


Senhores políticos, ACORDEM, protejam as nossas crianças revejam-nas nos vossos filhos, netos, e zelem pelos seus interesses!

Universalista

sábado, 7 de novembro de 2009

Poemas



"Ego"

Fui sozinho à minha entrevista,
Quem é esse que me segue
na escuridão calada?

Afasto-me para ele passar,
mas não passa.

Seu andar soberbo
levanta poeira,
sua voz forte
duplica a minha palavra.

Senhor,
é o meu pobre eu!
Ele não se importa com nada.
Mas como sinto vergonha
por ter de vir com ele
à tua porta!

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"







A ARTE DE SER FELIZ, Cecília Meireles


Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

L'autunno - Vivaldi



terça-feira, 3 de novembro de 2009

Homenagem a Claude Lévi-Strauss (1908-2009)


Foi um dos grandes intelectuais franceses do século XX e lançou as bases da Antropologia moderna. Foi o primeiro membro centenário da Academia Francesa, para onde entrou em 1973. E foi também um crítico do etnocentrismo e de algum modo um precursor intelectual do movimento ecologista.


Lévi-Strauss criticou o aparecimento de uma corrente de pensamento humanista que secundarizou a natureza, tornando-se assim num precursor do movimento ecologista.


Tímido, melómano, admirador da civilização japonesa, atraído pelo budismo nos últimos anos de vida, Lévi-Strauss recusou comparecer a todas as homenagens que lhe prestaram em Novembro de 2008 por ocasião do seu centenário. Manteve-se céptico até ao fim: "Penso no presente e neste mundo: não é um mundo que ame."Mas deixou herdeiros. Muitos poderão hoje como Dinah Ribard, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris: "Todos os antropólogos franceses são filhos espirituais de Lévi-Strauss."

domingo, 1 de novembro de 2009

"MAR" & Mia Couto


"Viemos da água,somos água, e só seremos terra, pó, quando secarmos. Cabe-nos não nos deixarmos minguar, secar, antes que o fio do tempo nos dite a morte. Compete-nos abrir as comportas da água interior, soltar o sangue, o sonho, libertar o coração: " Milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida".