terça-feira, 3 de novembro de 2009

Homenagem a Claude Lévi-Strauss (1908-2009)


Foi um dos grandes intelectuais franceses do século XX e lançou as bases da Antropologia moderna. Foi o primeiro membro centenário da Academia Francesa, para onde entrou em 1973. E foi também um crítico do etnocentrismo e de algum modo um precursor intelectual do movimento ecologista.


Lévi-Strauss criticou o aparecimento de uma corrente de pensamento humanista que secundarizou a natureza, tornando-se assim num precursor do movimento ecologista.


Tímido, melómano, admirador da civilização japonesa, atraído pelo budismo nos últimos anos de vida, Lévi-Strauss recusou comparecer a todas as homenagens que lhe prestaram em Novembro de 2008 por ocasião do seu centenário. Manteve-se céptico até ao fim: "Penso no presente e neste mundo: não é um mundo que ame."Mas deixou herdeiros. Muitos poderão hoje como Dinah Ribard, da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris: "Todos os antropólogos franceses são filhos espirituais de Lévi-Strauss."

domingo, 1 de novembro de 2009

"MAR" & Mia Couto


"Viemos da água,somos água, e só seremos terra, pó, quando secarmos. Cabe-nos não nos deixarmos minguar, secar, antes que o fio do tempo nos dite a morte. Compete-nos abrir as comportas da água interior, soltar o sangue, o sonho, libertar o coração: " Milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida".



sábado, 31 de outubro de 2009

"Rio"


" O rio e o coração, o que os une? O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo." Mia outo






domingo, 25 de outubro de 2009

Rio Jamor e espaço circundante

Louvado seja Deus que não sou bom, 
E tenho o egoísmo natural das flores 
E dos rios que seguem o seu caminho

Preocupados sem o saber
Só com o florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa – existir claramente, 
E saber fazê-lo sem pensar nisso.

   Alberto Caeiro


Universalista


Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz. 

Alberto Caeiro

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Pelo mundo...



A veces sueño que vuelo

Que abro las asas y me escapo
De la gente que quiere
Encerrarme
Quiero poder volar para
No gastar más plata en pasaje
Para tocar las ballenas desde arriba
Para jugar en el aire
Y dar giros, ángel y libre

Victor, 10 años, poeta



Os pequenos saltimbancos - Montañita, Equador - América do Sul

Num fim de tarde em Montañita, uma pequena aldeia costeira no sul do Equador, conheci dois miúdos com pouco mais de 10 anos que estavam a fazer um espectáculo de malabarismos em monociclos, para grande entusiasmo do público que os observava, levantando a poeira da rua por entre saltos e palmas.


Juan, de 10 anos, e Eduardo, de 12, na velha tradição dos saltimbancos percorrem o Equador com os seus números de malabarismo e equilibrismo.


Filhos de dois artistas de rua, vivem sozinhos há 5 anos, altura em que, numa tarde de verão, os seus pais os abandonaram.


Estavam todos na Plaza de Santo Domingo, em Quito, junto à igreja, quando chegou a vez dos dois fazerem a sua parte. À medida que o número ia progredindo, os seus pais foram-se afastando sem que eles reparassem. Ao terminar, enquanto as pessoas dispersavam, e o chapéu se ia enchendo de moedas, reparam pela primeira vez na ausência dos pais.

Deixaram-se ficar pela praça à espera, percorrendo com os seus pequenos olhos cada passagem, cada rua e cada milímetro que os rodeava. Foram-se passando horas. Os pássaros calaram-se à medida que o dia se transformava em noite. O pequeno estômago do Juan foi apertando e, ao vigésimo rugido de fome, Eduardo juntou o dinheiro que tinham feito e foram juntos até um comedor, uma tasca equatoriana.


Dormiram na praça ao relento nesse dia, e no a seguir também. Ficaram lá uma semana antes de se decidirem a fazer à estrada.


Não sabemos o que lhes aconteceu mas ainda temos esperança de os encontrar na estrada, diz Juan enquanto arruma as maças e o seu monociclo.


Não param mais do que duas semanas em cada sítio e sempre que vão a Quito actuam na Plaza de Santo Domingo.


Apesar da idade, tal como muitos equatorianos que vivem na miséria devido ao estado económico do país, dormem onde calha e comem quando podem.


Recebemos mais que os outros por sermos tão novos, diz Eduardo. Mas às vezes é difícil, especialmente quando estão em viagem ou quando está a chover e as oportunidades de montarem o seu show são escassas..


No final da actuação, Juan deita-se no chão e Eduardo salta com o monociclo por cima de cada braço e perna, lentamente, e sempre aumentando a espectativa do público. Por fim, no clímax do seu número, ele salta-lhe por cima da cabeça, passando com a roda a escassos milímetros do seu nariz.


É a distância que os separa a cada dia da miséria e da fome mas ambos se mantêm optimistas e por enquanto, ainda não desistiram de encontrar os seus pais.


Hoje estamos bem, amanha logo se vê. Olham os dois para mim a rir-se e contagiam-me com optimismo.

Ricardo Lemos, Jornal Notícias

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

RETRATOS DA FAIXA DE GAZA






“As lágrimas de Allam”


Depois de um dia inteiro de reportagem, um simples encontro no elevador alterou-me os planos em relação ao que pretendia escrever. Allam, um jovem palestiniano empregado no hotel onde durmo, desatou a chorar à minha frente.

Não sei a idade de Allam, mas sei que já tem muitos anos de desespero. O encontro casual dá-se no elevador do hotel. Uma pergunta simples (de onde é?) abre a porta à conversa. "Portugal, muito longe não é?", respondo. "É tudo demasiado longe, não posso sair daqui", responde Allam.

Depois conta que antes do Hamas vencer as eleições de 2006 trabalhava como carpinteiro em Israel e recebia 7 mil Shekel (cerca de mil e 400 Euros) por mês; agora recebe mil. "Era bom, podia comprar tudo o que precisava, agora não". Diz-me que não pode casar e começa a chorar. Allam tenta controlar o choro, mas percebo que está a exteriorizar muita raiva e frustração acumuladas. A frustração de não ter futuro; a frustração de não ter esperança; a frustração de não perceber o motivo para lhe fazerem isto.

Estou sem saber o que fazer ao ver este palestiniano corpulento e jovem a chorar à minha frente. Allam desdobrou-se em desculpas: "Desculpe, mas às vezes temos de chorar"! Travada a convulsão do choro, as lágrimas teimaram em continuar e Allam ia passando disfarçadamente as mãos nos olhos. Diz que não é da Fatah, não é do Hamas, apenas quer viver. Diz que se tivesse nascido na Cisjordânia ainda poderia sair para outros países, mas quem nasceu em Gaza não tem essa sorte.

Tento devolver-lhe a esperança, que deve ser forte, que pode ser que desta vez seja encontrada uma solução para que Gaza deixe de ser esta imensa prisão ao ar livre.

E do que me serve estar a dizer a Allam que se eu pudesse faria alguma coisa para mudar tudo isto? Allam está farto de palavras, apenas quer viver. Algo tão simples e que toda a vida lhe tem sido negado.

Quantos Allam existem em Gaza que não têm a coragem de chorar no ombro do estrangeiro desconhecido? Quanta raiva acumulada? Quanta desesperança? E a chamada "comunidade internacional" faz o quê? Espera que tudo isto descambe em mais radicalismo, em mais revolta, em mais guerra? O que pode fazer um jovem a quem fecham todas as portas?

Por : José Manuel Rosendo/Antena 1/RTP

- Infelizmente os jovens vêem as portas fechar-se mesmo em países onde há "paz"e "liberdade", perante a passividade dos "bons" governantes!
Universalista

sábado, 17 de outubro de 2009

Um dia tranquilo, no Alentejo.








Mais propriamente, Monsaraz, Distrito de Évora, uma linda vila murada por um antigo Castelo conquistado aos Mouros em 1167. Com uma vista lindíssima sobre o rio Guadiana, hoje sobre a barragem do Alqueva. A capela de S. Bento, o Pelourinho, a igreja matriz de Santa Maria da Lagoa.
Ao almoço deliciámo-nos com uma típica sopa de cação, espadarte grelhado (não como carne) e um doce da região.
Depois do almoço descemos até junto à barragem uma vez que o sol abrasador de Verão não dava tréguas. Sentados debaixo de uma árvore (azinheira?) usufruímos daquele cenário tranquilo e fomos invadidos por um sentimento de paz imensa. Junto a nós e igualmente à sombra de uma frondosa árvore um rebanho de ovelhas descansava abrigado do calor intenso, no céu segui com o olhar o voo libertador das avezinhas, foi um momento único de silêncio e de paz.

  Só o Alentejo tem esta capacidade de nos transmitir, ao mesmo tempo, uma sensação de liberdade, paz e infinitude...

Lá no alto, Monsaraz impõe-se, na sua beleza branca e tranquila,mostrando a quem por ali passa  o dia-a-dia das suas gentes acostumadas a tanta beleza, longe da poluição e do barulho das grandes cidades.



Esta barragem é a maior de Portugal e da Europa, foi construída com o objectivo de regadio e produção de energia eléctrica, hoje é um dos destinos turísticos de excelência  onde os fins-de-semana relaxantes ocupam um lugar de destaque e onde as inúmeras actividades e divulgação dos costumes tradicionais e artesanto local estão a tornar o Alqueva um lugar de eleição.


Universalista

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

POESIA




De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem
Não os meus tristes passos
Mas a realidade
De eu ter passos comigo? 



(Pessoa, 1976: 132)




Poema 17


Esquece o tempo. O tempo não existe.
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.

Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...

Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,
foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esperar... 

                        (Tasso da Silveira)



GOZO OS CAMPOS


Gozo os campos sem reparar para eles.
Perguntas-me por que os gozo.
Porque os gozo, respondo.
Gozar uma flor é estar ao pé dela inconscientemente
E ter uma noção do seu perfume nas nossas idéias mais apagadas.
Quando reparo, não gozo: vejo.
Fecho os olhos, e o meu corpo, que está entre a erva,
Pertence inteiramente ao exterior de quem fecha os olhos
À dureza fresca da terra cheirosa e irregular;
E alguma cousa dos ruídos indistintos das cousas a existir,
E só uma sombra encarnada de luz me carrega levemente nas órbitas,
E só um resto de vida ouve.

(Alberto Caeiro)
 

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Medina Carreira arrasa o governo

Os comentários que colocaram nos videos não são meus e nem concordo com eles, acho que o jornalista está a fazer o seu trabalho. Coloco aqui os videos porque acho Medina Carreira um homem sem "papas na língua", um homem honesto, já existem poucos  na política, e vale a pena ouvi-lo!